Conversa do azul.

Tuyo – Solamento

Você viu a roda-gigante que puseram no topo daquele shopping?

Você viu a noite? Brilha na cor azul, será que funciona pro público?

Você sabia que no Brasil existem exatas 46.802 pessoas com o primeiro nome exatamente igual ao seu?

Sabia que os nossos neurônios não morrem como os cientistas acreditavam e que demora 66 dias até que o cérebro se acostume com algo novo?

39 é o número de dias que transcorreram desde a ultima vez em que a gente se viu, tenho 27 dias pela frente até que meu cérebro se habitue a tua falta, mas quanto tempo leva pro coração se acostumar? Quanto tempo até o tempo passar?

To reaprendendo a fazer silêncio, você já tentou ficar de boca calada quando dentro da sua caixa torácica uma força pressiona? Belchior dizia que da janela do oitavo andar ele gritava, eu queria gritar teu nome. Ontem fez silêncio na tua rua, só ouvi mesmo o barulho da chuva, de longe eu ouvi o teu silêncio.

S i l ê n c i o.

Descobri uma livraria no sul do Brasil que nenhuma outra pessoa no mundo combina tanto com ela quanto a tua imagem. As fotos do Instagram me fizeram te imaginar entre os corredores, lendo as capas dos livros, entrando no teu espectro azul tão bonito. Azul é a cor dos teus óculos mais bonitos, também é a cor que tu pinta as unhas e a cor preferida de Ana Cristina César.

A minha também.

“Tem um coração que faz barulho de água.” Esse é o nome do livro que eu comprei na livraria da Travessa. Eu tenho um coração de água, um coração que faz barulho de água, o teu faz barulho de vento. Eu queria ouvir teu coração batendo.

Me disseram recentemente que nós falamos da mesma maneira. Fiquei em silêncio.

sau. da. de.

Você viu a supersérie na televisão, aquela que se passa no sertão? A abertura é “Todo homem” do Zeca Veloso, lembra quando te mostrei essa música às sete da manhã? Também fiz a dedicatória do Livro dos Ressignificados com ela.

Eu tenho que te ressignificar.

Eu tenho que te ressignificar.

Eu tenho que te ressig…

Tá chovendo muito esses dias e tem uma virose solta pelo ar. Eu não sei se você tá sorrindo assim 😀 ou se você tá sorrindo assim 🙂 eu não sei se você tá respirando tranquilamente.

Não saber de você faz faltar o ar e eu tenho asma.

Lembra quando eu disse que você chorava por metros cúbicos? Agora eu também sou assim a impressão que tenho é que estou redescobrindo a vida.

Eu tenho que redescobrir você nessa vida nova.

Tu, no fundo de dentro de mim. Eu, nas margens de mim. Que horas passa?

Passa?

Vi um filme nacional no Netflix, daqueles em que você dormiria facilmente nos primeiro sete minutos e me perguntaria como foi. Todas as razões para esquecer. É esse o nome do filme.

Todas as razões para esquecer.

Eu listo razões todos os dias para substituir as memórias que o meu cérebro tem ligadas a você. Eu queria que você ficasse.

Eu sei, eu sei é o tal do sentimento que não chegou o tal do desejo que preferiu ficar na portaria batendo papo. Eu sei. Meu coração não.

Voltei a tomar Litium, minha vida acadêmica tem agradecido, Frontal passou por um período não recreativo e eu quebrei aquela promessa de não misturar com outras coisas, eu não sabia o que fazer. Ainda não sei, mas a promessa ainda está de pé. Juro juradinho.

Eu tenho medo de te desconhecer.

Eu tenho medo de tudo.

Eu tenho medo do esquecimento.

Eu não quero esquecer.

Você tem que ir, tem mesmo e eu preciso esquecer os medos.

Passa.

Diário de bordo VIII – Silêncio

– Tá pensando em quê?

– Em nada.

Silêncio.

– Tá pensando em quê?

Silêncio.

Certamente se você me fizesse essa pergunta agora eu responderia que estou pensando em você. Mas antes não pensava em nada porque você sempre funcionou como um inibidor de sinal dentro de mim.

Eu gostava de olhar você pelo canto do olho, às vezes te flagrava me olhando, tentava decifrar alguma coisa que se passava no teu pensamento, nunca foi possível. Você não fala, nunca falou nada que deveria ser falado e foi assim, exatamente assim que eu morri inúmeras vezes, pelas mãos do teu silêncio. Gastei todas as minhas palavras tentando encontrar aquilo que você não disse, gastei neurônios, algumas noites de sono e nosso ansiolítico preferido.

Antes de me culpar lembro que fiz o melhor de mim, então só entristeço, envelheço, fico em silêncio, mas sem culpa. Fico repetindo inúmeras vezes à mesma cena, você no sofá de frente pra mim, a penumbra na sala, a parede magenta, minha garganta fechando. Não havia nada que eu pudesse dizer, mas disse, não havia nada que eu quisesse fazer mais do que virar poeira no tempo, assim dava pra morar no teu travesseiro.

O tempo.

Silêncio.

Às vezes no meio da tarde enquanto ando pelo centro eu sinto o ar faltando e não consigo respirar, é a tua falta encostando na minha caixa torácica. Levanto a cabeça e puxo o máximo de ar que posso quase sempre sou salva pelo azul.

A z u l

As tuas unhas.

O livro português que eu te dei.

O coração que eu te mandava nas mensagens antes de pegar no sono.

O que seria de mim se não fosse o azul?

E eu sem você, sou quem? Reaprendendo o caminho da volta a meu próprio corpo, tateio as paredes e faço um re-conhecimento em mim.

Varro a casa, sacudo os lençóis, abro as janelas.

Futuro.

Diário de bordo VI

a·lí·vi·o
(derivação regressiva de aliviar)

1. Ato ou efeito de aliviar.

2. Sensação agradável que se tem quando o que oprime ou molesta cessa de todo ou em grande parte.

.

3. É quando a dor diminui gradativamente, é quando eu só chorei uma vez no dia, é quando eu lembro com amor do teu sorriso antes de dormir.

É o que eu sinto agora que fecharam-se os ciclos.

Com todo amor.

Pequenas embarcações e algumas solidões.

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Dia desses enquanto andava na rua por voltas das 17h perto da praia me deparei com um casal. Estavam tão abraçados, enterrados um no outro, passaram muito tempo daquela maneira, eles choravam. Eu sabia que era uma despedida, eles também.

Vi os dois se desatando a moça com o rosto inchado do choro o rapaz com as lágrimas escorrendo e então cada um foi para sua ponta da cidade. Duas forças em direções opostas, como é triste quando morre uma relação. Não sei lidar com as perdas, fico andando lado a lado com a falta e uma amiga me disse hoje que eu preciso desapegar da falta e parar de olhar pra ela é preciso recomeçar, mas sem a presença da falta sem olhar pro lado e lembrar quem esteve ali, andar reto, seguir em frente.

Enquanto observo as palavras se agrupando em frente ao computador recordo todos os registros feitos nos últimos meses, todas as imagens feitas com filtro de analógica, todos os desenhos feitos, as músicas ouvidas, um apartamento vazio.

Eu, vazia num apartamento, você vazia de mim nesse mesmo apartamento. Eu quis correr, mas nem mesmo era possível respirar, ainda não é.

Soluço.

Relembro.

Ainda é fresco o registro do sorriso, ainda é vivo aqui os teus olhos sorrindo por detrás dos óculos japoneses lindos.

Ainda é.

Ainda é.

Sempre é.

Vai curar, eu sei que cura e que os objetos serão ressignificados exceto o caminho da tua casa e tua janela acesa às dez da noite. Mas é como dizem “Não tem mais negócio.”

“Isso dói, como dói, dói pra caralho”

Soluço.

Choro preso e então choro solto.

Olha pro nada no desespero de não olhar um rosto pra não guardar uma memória triste.

D ó i

D ó i

D ó i

Respira, respira, mas o ar não chega aos pulmões certamente a asma querendo dizer que me faz companhia.

Abraço com força vem me abraça com força até que os ossos estalem e doa menos que o coração, abraça até a gente sumir e quem sabe se encontrar numa outra dimensão do espaço tempo, mas uma dimensão em que a gente consiga seguir em frente e não parar no mesmo ponto. É triste quando amor não leva em frente.

Em frente.

Em frente.

Eu não sei sorrir triste, mas eu sorri. Aliviar teu coração me parece uma boa opção. Meu coração duro agora no chão feito em pedaços.

As pessoas andam na rua eu penso, vou andar com elas.

“Toma uma água.”

Eu não queria água, eu queria que desse certo.

Fica.

F i c a.

F i c a    e m   m i m.

A ferida que abriu mais já estava aberta, mas eu cuidava dela sozinha. Chorava na madrugada no chão do teu banheiro porque o tempo ruim no céu anunciava o prelúdio do fim.

Tudo

Tem

Um

Fim

A verdade é que ainda não sei por onde começar, alguma coisa é preciso fazer de tudo isso. É preciso força.

F o r ç a.

Quanto tempo será que demora?

Que horas ela volta?

Ah, ela não volta e você também não.

Chorei no teu elevador, não me lembro de ter visto o porteiro só de engolir o choro pela rua, saí sem olhar pra trás pra não te ver na soleira da porta.

Lembrei da minha escova de dentes no teu banheiro, esqueci de pegar, mas pra quê pensar na escova de dentes a essa hora?

Ainda

Ainda

Ainda

Ainda

Doe e vai doer, eu não vejo mais você consequentemente eu nem me vejo mais. Será que você se via em mim?

Mas o poema da baleia ele me disse “Isso tem um fim.”

Isso tem um fim

Isso

Tem

Um

Fim

Eu sou oceano, eu sempre fui oceano, hoje enquanto chove lá fora eu me sinto uma pequena e frágil embarcação. Mas não é isso mesmo que nós somos, pequenas embarcações agora seguindo por costas diferentes.

Sempre houve esse meu tsunami no teu furacão Katrina e como em todo furacão o mar cede passagem, eu cedi. É outono dizem, você foi, de novo.

A pequena embarcação que sou procura numa bussola quebrada a direção mais certa pra seguir, me perdi no meu próprio mar e esqueci que ar é coisa que não se pode jamais segurar.

Isso

Tem

Um

Fim.

Parque de diversões, ausências e aproximações.

Já observou a alegria que toma o rosto das pessoas quando elas entram num parque de diversões? Todos aqueles brinquedos que parecem sempre datados dos anos 70 todas as luzes e vendedores de algodão doce ou maçã do amor.
Uma atmosfera mágica que envolve por muitas vezes os habitantes das cidades do interior. O parque de diversão o qual me refiro não é aquele monumental inspirado quase sempre em Coney Island, não.
Me refiro aquele que viaja em caminhões percorrendo as menores cidades possíveis, levando para novos casais que pouco veem as grandes cidades uma precária roda-gigante repleta de luzes e um operador com cara de poucos amigos. As crianças giram no carrossel enquanto não sabem que o tempo se desfaz assim como algodão doce nas mãos.
Eu admiro a beleza dos encontros, sejam eles entre pessoas, momentos ou lembranças. Admiro a beleza de quem se encontra com o passado sem antes ter se dado conta que ele sempre esteve ali preservado, intacto. Seja no velho quarto de infância na casa dos pais ou em fotos que escondemos dos amigos por vergonha e acabamos nos escondendo de nós. Seguir em frente é parte natural da existência e da engrenagem que move o mundo de modo que o tempo avança e o passado já mora no minuto seguinte, é muito fácil esquecer as coisas que foram boas e ficaram num tempo distante.
Pessoas, cheiros, sons, uma roupa ou a escola a qual não se adaptou. Tudo vai para dentro de um velho guarda roupa o qual você nunca encontra tempo para olhar.
As 16h47 de um domingo numa sala de cinema cara qualquer enquanto segura o celular em uma das mãos porque é difícil não olhar a tela que se acende com a mensagem de um amigo ou um possível amor falido a vida manda avisar que o tempo de alguém que você ama parou. Em alguns segundos a vida derrama no seu colo um prato cheio de ausência.
s i l ê n c i o.
Então o guarda roupa velho é aberto às pressas na esperança de voltar o relógio pro dia em que era possível ouvir uma voz e só calar, sentir um cheiro ou só observar em silêncio um momento que não se repete na linha cronológica do universo. Nesse momento a roda-gigante não gira e as luzes do parque de diversões que antes iluminavam um sorriso se apagam e acolhem pares de lágrimas.
Das ausências inesperadas nascem as (re)aproximações. No meio das ausências repentinas se encontram os braços daqueles que assim como você também correram até a porta do guarda roupa antigos buscando a última memória que ali deixaram escondida na fenda do espaço-tempo. No meio do espaço oco da falta nós encontramos quem acende uma à uma as luzes do parque de diversões e preenche os espaços ao nosso redor para que o coração não esqueça o que os olhos não conseguem momentaneamente enxergar.
É bem verdade que o tempo não volta e uma vez que alguém parte do mundo físico não pode ser trazido de volta, não em matéria. Mas a lembrança guardada no velho guarda roupa do quarto de infância na casa dos pais segue intacta. Conservada nas fotos de aniversário com nosso sorriso no rosto… Uma fotografia é uma fenda atemporal no espaço é a oportunidade de reviver por alguns minutos o que já não se pode mais, é encarar de perto um outro tempo

sem sair do momento presente.

Sempre que se perde alguém uma ausência puxa uma cadeira e senta no nosso peito, mas ao mesmo tempo pessoas que nos amam sentam na cozinha e tomam um café preto recém coado enquanto relembram o percurso da vida até ali e sorriem para espantar a tristeza.

Algumas ausências são mais sentidas que outras e eu ainda não sei lidar com elas, mas aprendi que as aproximações previnem algumas faltas e nos dão momentos em parques de diversões ou apenas ao redor da mesa para que possamos guardar novos capítulos e os revisitar num velho guarda roupa sempre que a saudade for maior do que a nossa capacidade de enxergar as luzes no topo da roda-gigante que sempre gira num único sentido, (en)frente.