Oh, Ana.


Ana, se eu pudesse eu mandava mapear meu cérebro. Com um neurocientista e um assistente me pondo numa máquina e mapeando você. Oh Ana, eu penso nisso sempre que lembro de você, quando encosto a cabeça na janela do ônibus no alto das seis da tarde.
Se um neurocientista soubesse o caminho que você percorre dentro da minha cabeça e corresse atrás de você pra te tirar daqui, tenho certeza que alguma parte do meu inconsciente te esconderia ainda mais fundo dentro de mim, como no filme sobre mentes sem lembranças.
Ana, se você soubesse que as coisas não se vão assim num simples estalar de dedos, se você soubesse que não existe em mim uma chave ou um botão de liga e desliga do meu querer por você, você talvez me olhasse com mais gentileza. A mesma gentileza que eu desculpo as vezes em que você esquece que eu também sou meio frágil, a gentileza que eu desculpo todas as vezes em que caí e você pisou no meu dedinho antes de tentar me ajudar a levantar.
Estive pensando em coisas com a letra “e” euforia, estada, esquecimento, eu queria esquecer você Ana, mas queria tanto que só consigo lembrar e no meio da lembrança eu só penso no teu cheiro, como é bom teu cheiro.
Tenho pensado com certa obsessão no tempo, porque as coisas vão passando como se eu permanecesse sentada no assento do ônibus e o motorista não ouve o sinal de parada, perdi a hora do trabalho, perdi o prazo de entrega de um projeto importante, perdi você.
Eu não costumo perder as coisas Ana, você bem sabe, não lembro de um dia em que eu tenha perdido as minhas chaves ou um cartão de aniversário que você me deu. É inverno, dizem. Não faço ideia do que você anda vestindo, comendo, lendo, eu não te vejo em nenhum lugar da cidade, eu não me vejo em nenhum lugar da cidade. É aquela síndrome de ser invisível.
Mas voltando a neurociência e os mapas mentais, o cérebro não mente, você sabia? Li num artigo dia desses, acho que você não mora mais no meu coração, Ana, se alojou no meu lóbulo frontal ou no meu hipotálamo, ou na minha massa cinzenta, não tem neurociência, médico, terapeuta que me faça esquecer a falta que é não compartilhar a vida com você.

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Um caminhão de móveis.

Recife, 27 de outubro de 2018
Num sábado por volta das dez da manhã eu dormia num chão de tacos perto da porta. Era medo do interfone tocar e eu não acordar.
As crianças vivendo em demasia a alegria extrema na piscina do prédio ao lado, eu sorrindo bobamente ao ouvir os pulos na água.
Acordando a cada meia hora, vivendo pequenos sonhos no inconsciente todos eles com um mesmo personagem, mas não vou falar aqui.
Tem algo de interessante em esperar um caminhão de móveis desde as oito da manhã quando você só dorme 3h numa noite por não conseguir dividir a cama com um corpo estranho. Mas voltando ao caminhão, é como se ele concretizasse as expectativas que a vida concede, mas na hora que o entregador bem entende.
Tem beleza nisso de estar num apartamento vazio, tem espaço, tem tempo.
Si.lên.cio.
Dia desses eu pedia aos céus uma fenda temporal no espaço-tempo, parece que neste sábado da graça eu achei a entrada. Longe das expectativas dos outros e das minhas, exceto pela espera do caminhão.
Já tem tempo que as esperas que sufocam partiram, ainda bem.
Recife tem o céu mais azul que eu conheço e assim como Ana Cristina César eu tenho a ambição de morar, de morar no azul.
São tempos difíceis de um ponto de vista socioeconômico, tenho medo pelos meus e por aqueles que nem conheço, mas que indiretamente constroem comigo uma conexão de resistência.
Hoje, mais que antes acredito na força do amor, seja ele de que tipo for. Vênus retrógrada em libra até dezembro, Paula Prado disse no tarot de escorpião para novembro deste ano da graça de 2018 e em duas semanas mais ou menos chego aos 26.
Não sei se entendo o tempo, mas eu respeito. A gente briga pela minha falta de entendimento e depois ele me faz um carinho, me toca mansinho.
Não sei de muitas coisas, mas eu quero mesmo saber, ir tropeçando nelas assim como Hans Castorp tropeça nos seus sentimentos por Mme. Chauchat e nem se dá conta.
Hoje, na reta final dos 25 com sol a pino já em escorpião eu espero pela vida que chega e por um caminhão de móveis que vai preencher espaços de um apartamento no alto do sétimo andar de um prédio antigo.
Eu tomo um Frontal, leio um livro e sorrio no fundo eu sei, ainda há tempo.

Universo paralelo

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– T­á pensando em quê?

– Nada.

Seu rosto a um palmo de distância do meu, aquela luminária de luz amarela do seu lado da cama te deixando na contra luz, teu nariz bonito bem perto do meu.

– Sério. Tá pensando em quê?

– Em nada.

Essa é tua lembrança mais quente que tenho guardada. Dia desses cruzei a cidade de bicicleta e aí me dei conta da verdade daquele poema, entendi que sim, eu atravessaria até um país de bicicleta só para te ver mais de perto já que você não dança.

Tenho a impressão que brinco de esconde-esconde com a tua lembrança que vez por outra rodopia pelo meu cérebro. Como quando Joel tenta esconder Clementine dentro das próprias lembranças que ele pagou para apagar.

Um silêncio

Tua camisa branca com uma estampa que eu não lembro.

A luz da sala bem fraca.

Eu encostando a cabeça no teu peito.

Teu cheiro.

A memória da pele nunca esquece.

Nunca te chamei por um apelido carinhoso e só me dei conta disso no meio de uma sessão de cinema cujo título do filme era “Benzinho”. Chorei tanto nessa ida ao cinema que quase supera aquela vez em que vimos o filme francês e choramos as duas. Comemos tapioca na cozinha de casa pós-sessão por pura incapacidade de interação humana.

Antes eu me perguntava o que você estava fazendo, mas depois ficou natural não saber. Acho que foi quando eu parei de brigar com a sua ausência (que sempre esteve aqui) e esqueci o dia em que você sumiu.

Às vezes parece que nos falamos ontem, alguma besteira sobre alguém, mas a verdade é que o tempo nos atravessou, é verdade também que eu atravessei o tempo e agora andamos os dois, cada um do seu lado da calçada e em seu próprio ritmo.

– Esqueceu?

– Esqueci.

– Mesmo?

– Mesmo.

– Esqueceu dela?

– Esqueci o medo de esquecer.

Incrível a capacidade da memória, a memória da pele N U N C A esquece.

Talvez tenha sido ela que me fez recordar de nós na cama conversando com luz fraca ligada enquanto um texto de Nelson Rodrigues era encenado no teatro.

Negue seu amor, seu carinho, diga que você já não me quer.”

Desceu uma única lágrima quente do meu olho, não sei se pela cena visceral, não sei se pela recordação de minha imagem chorando completamente vulnerável no teu sofá numa quarta-feira qualquer.

Mais uma vez eu fui atravessada. Isso de conviver com a falta ainda me deixa sem fala e quando perguntam:

– E aí, tudo bem?

Respondo que tudo bem.

S i l ê n c i o

Queria dizer que te esqueci, mas que grande mentira eu estaria contando, mas queria dizer. Posso dizer que está tudo bem entre nós e que não nos cruzamos mais, mas estamos bem.

Ah, não entenda mal, lembrar de você não é algo que me parte, não lembrar é que seria problema, como aquele dia em que te vi pela janela e nada aconteceu cá dentro.

N A D A.

Meu assombro foi a não reação do meu próprio coração que antes ficava aos pulos, mas não alterou seu ritmo normal, foi como ver um estranho e sentir um pequeno deja vu. Não sei se entendi.

Mas hoje, especialmente hoje na primeira fila de um teatro, no meio de uma cena de um musical eu ouvi um estrondo no meu próprio peito. O estrondo tem nome, mas não vou dizer nome.

Em algum universo paralelo você me pergunta:

– Tá pensando em quê?

Eu vou responder:

– Em nada.

Mas em todas as vezes e em todas as vidas o nada é, você.

Cafés, futuros e esquecimentos.

Ler o meu futuro na borra do café depois que ele coa todos os dias por volta das 18h00. Ler teu futuro na borra do café e assim saber se o nosso caminho ainda se cruza.

Eu não te vejo aqui.

Andar pelas ruas do centro num dia em que o céu é tão azul quanto minhas lembranças mais secretas e o vento sopra frio como se nem estivessemos no nordeste.

A C R E D I T A R.

Eu acredito meio desacreditando os dias são curtos e alguns passam devagar. Se você se sente apaixonado que sorte a sua. Se você sorri sem um peso no coração que sorte a sua.
Parece que estamos todos munidos de um arsenal de perdas que não superamos. Perder não se trata de ter que procurar, se trata de não se deparar com o que estava dormindo a seu lado minutos atrás.

Eu perdi.
Você nunca procurou.

Meu telefone nunca tocou e ainda não sei qual a razão de o deixar sempre no modo avião. Tem algo de bonito nisso de estar utópicamente nas nuvens.

OUT.

Gosto de dizer que estou fora ou que fiquei de fora. Antes soava como rejeição, mas agora é só uma forma de ver com mais clareza as ausências maqueadas.
Dois pés sob a linha do limite. Dois pares de pés, cada um em seu lado da fronteira uma única reta sem intercessão.

I M P E R M A N Ê N C I A.

O princípio do esquecimento é a lembrança. Lembrar até que se esgotem as forças nos nervos das mãos, lembrar até que a mente pare.

s i l ê n c i o.

Ouvi meu coração machucado batendo num ritmo que desconhecia. Encolhida no chão frio do quarto, quietude e o eco da pulsação.
Coração.
Corpo.
Ação.

I’M STILL ALIVE.

Se eu coasse café sozinha antes de você coar pra mim todas as manhãs na sua cozinha no alto de um prédio, o cheiro do café que eu sinto todos os dias não seria seu.
E eu não pensaria nenhuma vez em ler o passado num simples filtro de coar Melitta.